Tem clima para caminhar? Buscamos algumas soluções através de uma conversa que fez parte do evento 24 Hours of Reality: Countdown to the Future

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O vídeo completo pode ser acessado no nosso canal do Youtube: Como Anda.

Você já parou para pensar que o simples ato natural e inerente ao ser humano, de caminhar pelos espaços da cidade, é uma forma potente para reduzir os efeitos das mudanças climáticas no nosso planeta?

A conversa intitulada “tem clima para caminhar?”, inspirada no tema de como cidades caminháveis podem ser uma das soluções para crise climática, aconteceu no dia 10 de Outubro como parte da programação do evento 24 Hours of Reality: Countdown to the Future. Essa é uma discussão que não pode — e não deve — mais ser adiada. Mas de que forma o andar a pé contribui?

Antes de mais nada, a Wans Spiess conduziu a contextualização do cenário da mobilidade a pé através de todo o trabalho de estudo e levantamento de dados e referências realizado pelo Projeto Como Anda desde 2016. Somos mais de 190 organizações que defendem o caminhar no Brasil: desde áreas de atuação que englobam arquitetura e urbanismo, políticas públicas, educação, entre outras. E essa rede está em constante expansão!

E a legislação, está ao nosso favor?

Na sequência, a Silvia Stuchi trouxe dados chocantes sobre a divisão modal de viagens realizadas pelas pessoas no Brasil. Quase 40% da população brasileira se desloca exclusivamente a pé (ANTP, 2018). Mas na realidade de quem caminha pelas cidades brasileiras, sabemos que, muitas vezes, esse ato é cheio de obstáculos. Na cidade de São Paulo, por exemplo, mais de 80% do espaço viário é destinado à veículos individuais motorizados.

Ao avaliar a legislação no âmbito federal, estadual, municipal e até em escalas mais globais (como a Conferência das Partes, em 2015, Paris, onde os países participantes tiveram que desenvolver a NDC — Contribuição Nacionalmente Determinada — para elencar ações para redução de emissões) percebe-se que a mobilidade ativa ainda não é vista como uma potência para auxiliar nas ações de combate à mudança climática, principalmente em grandes cidades onde o deslocamento é uma das maiores fontes de emissões. Na NDC brasileira, não há nenhum aspecto voltado para incentivos à mobilidade ativa. Na categoria de transporte, o que se é tratado são biocombustíveis ou de baixo carbono, que são importantes, mas não resolvem as reais questões postas nas cidades e pode até ter um efeito de criarmos um novo tipo de “eco congestionamento”.

Os impactos de um sistema acessível, seguro, confortável para a mobilidade ativa também reflete no cenário social, através de maior garantia de acesso a direitos básicos de saúde e qualidade de vida, e econômicos, onde o investimento nas redes de mobilidade ativa pode ser muito reduzido em comparação a investimentos em fontes de combustíveis renováveis, por exemplo.

Qual a cidade que a gente quer?

Uma das respostas para essa pergunta é: um manifesto por cidades para pessoas a pé. Apresentado pela Paola, o documento espelha perspectivas construídas de forma colaborativa com indivíduos e organizações que defendem o caminhar nas cidades. Precisamos: garantir ruas acessíveis, seguras, confortáveis e atraentes para todas as pessoas; promover a participação social; priorizar pessoas vulneráveis em políticas públicas; coletar, disponibilizar e sistematizar dados sobre o caminhar; comunicar de forma clara os atores envolvidos na construção de cidades; articular a academia para atividades e pesquisas no tema; (re)construir cidades como lugar das relações humanas e solidárias; ofertar ambientes urbanos para o brincar que garantam desenvolvimento seguro para crianças.

Para avançarmos na discussão, nada melhor que um momento colaborativo

A partir da reflexão posta, os participantes foram divididos em salas para trocarem impressões, ideias, informações de forma mais dinâmica. Após essa atividade, cada grupo expôs contribuições para que pudéssemos expandir nossos conceitos sobre o tema e vislumbrar novas oportunidade de atuação e sensibilização de pessoas para avançarmos em ações, propostas, planos e campanhas por cidades mais humanas. Confira os tópicos principais trazidos nas falas dos participantes:

  • É importante descobrirmos o nível de entendimento de termos já utilizados dentro do grupo de pessoas que defendem o caminhar. Será que as pessoas envolvidas nesses processos, direta ou indiretamente, sabem o que eles realmente significam?; O quanto as pessoas entendem o que estamos querendo dizer?
  • Precisamos estimular uma mudança de olhar para o território que estamos inseridos. O contexto da pandemia trouxe uma oportunidade de valorizarmos os territórios que a gente ocupa perto de nossas casas, trabalho, escola, que podem ser redescobertos através de uma caminhada;
  • É importante desenvolver um olhar mais amplo sobre, também, as positividades do lugar, com uma lente mais equilibrada em encontrar quais oportunidades que se abrem a partir de aspectos favoráveis preexistentes nos territórios;
  • É importante promovermos debates interdisciplinares que abordam temas como saúde, mobilidade, educação, para incentivar esse pensamento sistêmico e em rede;
  • Precisamos reforçar o discurso sobre os benefícios da mobilidade a pé para a saúde, meio ambiente, intermodalidade, meio ambiente, desigualdade social.

Para isso, além das ações de advocacy, precisamos incidir em políticas públicas, educação, orientação de investimentos para que o modo a pé se torne, de fato, uma opção segura e acessível para os deslocamentos nas cidades brasileiras.

E você, tem mais alguma sugestão? Vamos conversar!

Enquanto isso, saímos motivadas a articular cada vez mais pessoas, grupos e discussões e dar visibilidade ao tema para que mais pedestres se reconheçam como tal e disseminem a identidade pedestre.

Junte-se a ações que defendem um mundo melhor!

Campanha Mobilidade Sustentável nas Eleições — www.mobilidadenaseleicoes.org.br

Campanha Inimigo Invisível — www.inimigoinvisivel.org.br

Confira o bate-papo completo no nosso canal do youtube!

Referências:

ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE TRANSPORTES PÚBLICOS. Sistema de Informações da Mobilidade Urbana da Associação Nacional de Transportes Público Simob/ANTP: Relatório geral 2017. Disponível em: <http://files.antp.org.br/simob/sistema-de-informacao-demobilidade-urbana-da-antp--2017.pdf>. Acesso em: 09 mar. 2020.

BRASIL, Intended Nationally Determined Contribution, 2015 Disponível em: <https://www4.unfccc.int/sites/ndcstaging/PublishedDocuments/Brazil%20First/BRAZIL%20iNDC%20english%20FINAL.pdf> Acesso em: out 2020.

BRASIL, Política Nacional sobre Mudança do Clima, PNMC Lei nº 12.187/2009.

COMO ANDA, Manifesto por Cidades para Pessoas a Pé Um Documento em Defesa do Caminhar nas Cidades Ago/2020, 2020. Disponível em: http://comoanda.org.br/wp-content/uploads/2020/08/200808_ComoAnda-ManifestoColetivo.pdf Acesso em: out 2020.

INSTITUTO de Energia e Meio Ambiente. Inventário de Emissões Atmosféricas do Transporte Rodoviário de Passageiros de São Paulo, 2017. Disponível em <http://emissoes.energiaeambiente.org.br/>. Acesso em: 09 mar. 2020

SÃO PAULO, Política Estadual de Mudanças Climáticas — PEMC — Lei Estadual nº 13.798/ 2009

SÃO PAULO,Lei de Mudanças Climáticas de São Paulo — Lei 14.933/2009

WRIGHT L, FULTON L. Climate change mitigation and transport in developing nations. Transport Reviews, 2005, 25(6):691–717.

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