Webinar [04]: (Re)conquistando espaços para pessoas

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No dia 15 de maio foi realizado mais um encontro da série de Webinars do Como Anda. Desta vez, foram apresentadas mais duas experiências de defesa da mobilidade a pé estudadas pelo projeto: o programa Ruas Abertas em São Paulo e os casos de urbanismos tático para segurança viária, abordando estratégias, ferramentas e táticas que podem ser úteis para a incidência política em intervenções nas cidades que visem melhorias dos espaços para a mobilidade a pé.

Tivemos a participação de Ana Carolina Nunes, Conselheira de mobilidade a pé no CMTT e diretora da Cidadeapé, Danielle Hoppe, Gerente de Transportes Ativos do Instituto de Políticas de Transporte & Desenvolvimento (ITDP), Hannah Machado, coordenadora de Urbanismo e Mobilidade da Vital Strategies, Leticia Sabino, Fundadora e diretora do SampaPé! Além da mediação de Victor Andrade, Coordenador do Laboratório de Mobilidade Sustentável (LABMOB-UFRJ).

Victor introduziu o tema do webinar contextualizando que o cenário brasileiro apresenta desafios, instabilidades para mudanças nos espaços para pessoas e coloca dificuldades para consolidação de processos de ressignificação do espaço público. Entretanto, para ele, existe também a perspectiva do aumento de iniciativas que buscam essas mudanças, e que, ainda, pensando nas novas condições decorrentes dos impactos da pandemia do coronavírus, pode-se pensar em mais oportunidades para multiplicar ações visando conquistas de espaços para os pedestres. Por isso é um momento oportuno para usar as experiências passadas como inspiração e aprendizados.

Leticia, em sua fala inicial, também reforçou que pode ser um momento de oportunidades para iniciativas que visem intervenções de forma rápida, como ações táticas de adequação para a nova realidade. Por isso, discutir a organização do movimento que resultou no programa da Paulista Aberta pode ser uma fonte de inspiração.

De acordo com ela a ação teve 3 momentos fundamentais: Inspiração, mobilização/execução e manutenção. A inspiração para essa experiência antes inimaginável veio, principalmente, do Dia Mundial sem carro e das jornadas de junho, que trouxeram força para a pauta da mobilidade urbana. A partir daí, SampaPé! e Minha Sampa, iniciaram a mobilização para atingir essa possibilidade a partir de 3 táticas simultâneas — pressão direta (gestão pública), criação do imaginário (sensibilização da sociedade civil, engajamento de outras organizações) e ocupação da mídia. Por fim, na fase de manutenção, as organizações concentraram esforços na obtenção de dados coletados por pesquisas para argumentarem a favor da permanência da experiência.

A coleta de evidências também foi bastante explicitada pela fala da Ana Carolina, reforçando a importância de ter dados para embasar a argumentação e mostrar que o programa Paulista Aberta funcionava. Isso também permitiu que se pensasse num passo posterior, que garantisse a avenida aberta por mais tempo. Para tal, a estratégia utilizada foi a tentativa de manter Paulista Aberta junto com o Programa Ruas Abertas, por meio de um decreto municipal, justamente por garantir a permanência do programa, além de abrir a discussão sobre a redistribuição viária. Segundo Ana, essa movimentação demonstrou a necessidade de mapear argumentos contrários para se precaver sobre como desmontá-los e, mais uma vez, a coleta de dados, assim como a articulação de diversos atores, contribuiu para essa fase. Ela ainda enfatizou que, apesar de nem sempre conseguirmos fazer essa busca por evidências com muito rigor metodológico, nossa vivência na cidade já nos proporciona boas ferramentas para debater questões sem necessidade de formação acadêmica específica.

Se por um lado, a Paulista Aberta pode ser compreendida como um processo que parte da pressão da sociedade civil, por outro, os casos de urbanismo tático acontecem de forma diferente, por meio de convênios técnicos do setor público com organizações da sociedade civil. Assim, na sequência, Hannah e Danielle, apresentaram casos de urbanismo tático.

Hannah destacou que pela fórmula relativamente simples, com bom planejamento, autorizações, engajamento de atores, o urbanismo tático tem grande potencial de transformar as ruas Entretanto, é necessário lembrar sempre que o processo, em sua completude, pode ser muito oneroso pelo tempo, recursos humanos e financeiros demandados. Intervenções no espaço público envolvem muitas pessoas, o processo passa por muitas etapas, com procedimentos para aprovação e, portanto, sua construção é complexa. Justamente por esse motivo o urbanismo tático tem que ser visto como um meio e não como um fim.

Danielle reforça que o urbanismo tático é uma importante ferramenta para que intervenções definitivas possam sair do papel e serem testadas na rua. A essência do urbanismo tático é provar antes de seguir com mudanças maiores e, por isso, experiências anteriores reforçam o potencial da ferramenta e contribuem para que outras áreas e cidades também tentem mudanças. Assim, exemplos que já tiveram sucesso demonstram que é possível reunir atores interessados na sociedade. Além disso, de alguma forma, há certo ativismo por parte das organizações da sociedade civil incidindo dentro do próprio governo, no sentido de apontarem (e convencerem para) novas possibilidades de intervenções. Agora, depois de uma série de ações feitas, é hora de avançarmos para um passo além e o grande desafio ainda é como manter a qualidade e realizar a manutenção dessas intervenções.

O webinar possibilitou que essas diferentes estratégias fossem discutidas e contribuiu para pensarmos em possíveis próximos passos, tendo em vista o que já foi realizado, seja a partir de “fora”, por pressão da sociedade civil, ou de “dentro” através de convênios de assistência técnica entre poder público e instituições. Em comum todas as falas apontam para o grande esforço em utilizar ferramentas de articulação de atores, coleta de dados, encaminhamento de resultados e diálogo com órgãos públicos. Como colocado por Victor, a força dos exemplos discutidos no webinar é muito importante para outras cidades replicarem boas ações, e afinarem processos baseados em seus próprios contextos. E, por outro lado, ressalta que ações voltadas para a mobilidade ativa não podem depender somente do urbanismo tático, enquanto que, para outras formas de mobilidade, as mudanças acontecem de forma mais rápida e definitiva.

O debate ainda engajou os participantes que em uma série de perguntas que aprofundaram mais o tema. Agradecemos mais uma vezes a todas as pessoas convidadas e ao público que esteve online neste webinar. Se você se interessou no assunto e quer assistir o webinar completo, registramos e disponibilizamos esse encontro no nosso canal do Youtube:

O Como Anda vem compartilhando aprendizados do mapeamento e dos relatos detalhados de experiências de defesa na mobilidade a pé estudados em uma nova fase do projeto, iniciado em 2019. Essas leituras atentas nos levaram a identificar as principais estratégias, as táticas e ferramentas que os grupos usaram nessas ações e refletir como esse conhecimento poderia ser replicado e aplicado em casos semelhantes — e assim, quem sabe, também inspirar mais pessoas a defenderem a mobilidade a pé nas eleições deste ano. Além de estarmos formatando uma publicação e compartilhando os destaques dessas experiências em posts nas mídias sociais, também seguimos organizando uma série de webinars com especialistas e pessoas interessadas para discussão sobre como defender a mobilidade a pé — antes, durante, ou depois das Eleições municipais de 2020. Já foram 3 webinars com diferentes abordagens para a defesa da mobilidade a pé. Vejam os relatos:

Se animou e que somar com a gente? Ainda teremos outras discussões interessantes pela mobilidade a pé. Preencha o formulário disponível neste link e faça parte de um grupo de diferentes perfis e um interesse comum: se engajar pela mobilidade a pé. Fique de olho e acompanhe mais sobre táticas, ferramentas e outros estudos de caso nas nossas redes sociais (Instagram e Facebook). Juntas e juntos, vamos longe!

Como Anda é o ponto de encontro de organizações que promovem a mobilidade a pé no Brasil, um projeto em desenvolvimento desde janeiro 2016 pelas organizações Cidade Ativa e Corrida Amiga através do suporte financeiro do iCS. Na terceira fase (2019–2020), o projeto está investigando experiências de incidência política na mobilidade a pé.

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Quem promove mobilidade a pé?

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